Políticos, Shampoos e Galinhas

Imagine um novo shampoo, uma nova cerveja ou novo sabão em pó sendo lançado no mercado sem nenhuma campanha publicitária. Com zero de comunicação e ainda com uma embalagem feia, e exposto em um lugar bem escondido, no fundo da prateleira de um supermercado.

Como é que você ia saber que esse produto existe? Difícil, não é? Conhecer as suas qualidades, então, nem pensar!

Pois nas campanhas políticas ou na comunicação pública é assim também. Se o candidato, o partido, o prefeito, governador ou presidente não mostrar seus planos, suas propostas, seu pensamento e, principalmente, as suas realizações, poucos vão saber a que ele veio e até que ele existe.

Marketing político – ou comunicação pública, como eu mais gosto de definí-lo -, nada mais é do que a galinha cacarejar na hora que bota o ovo. Se ela não fizer isso, ninguém sabe que ela botou. Quem não se comunica se estrumbica, já dizia o velho Guerreiro Chacrinha.

Política, mercado ou ovos precisam de comunicação com o público, caso contrário eles se tornam praticamente clandestinos.E pior: se um político, produto ou galinha não se comunica, e seus concorrentes o fazem, aí sim é que a porca torce mesmo o rabo, para ficarmos na analogia com o mundo animal.

Os concorrente passam por cima de você!

Então, por princípio, nada de demonizar o tal de marketing político e seus “marketeiros”, como a nossa mídia insiste em nos chamar. Eu me orgulho do meu trabalho, do meu empenho em tentar, através dele, mostrar para os brasileiros certas verdades que muitas vezes a mídia esconde ou distorce.

Bom, mas você pode dizer: e as mentiras, as falsas promessas, falsas realizações daquele candidato ou daquele governante ou partido? Aí vai uma diferença entre o meu trabalho e o dos publicitários de produtos, ou mesmo da nossa dócil galinha.

Se eles comunicam que um sabão lava mais branco e você compra, usa e sua roupa fica cinza, você troca de produto na próxima compra. Se a galinha cacareja, você pega o ovo e ele está podre, você joga fora e pega um outro, de outra galinha.

Na política, num governo, infelizmente não é assim! Se eu ajudar a vender uma mentira, o eleitor, na maioria dos casos, vai ter que esperar 4 anos para poder trocar. Então, minha responsabilidade de profissional que faz comunicação pública é muito maior que a de um publicitário de mercado, ou de uma galinha.

Mas eu acertei sempre? Tudo que ajudei a comunicar era verdade? Claro que não!

Não sou Deus, nem santo, nem demônio, nem mágico – como, aliás, muitos clientes e jornalistas acham.
Sou e somos pessoas normais, com erros e acertos, como o são os cidadãos, os políticos, os jornalistas, os juízes, os advogados, os jogadores de futebol, etc , etc, etc…

Já me arrependi de uma ou outra comunicação que fiz, mas na maior parte das vezes em que trabalhei voluntária ou profissionalmente, o fiz com paixão e acreditando no que ajudei a vender! Algumas vezes, infelizmente, me decepcionei, mas na maior parte das oportunidades que tive nesses meus 30 anos de comunicação pública, me orgulho do que fiz.

E, para mim, orgulho não está invariavelmente ligado a vitórias eleitorais. Está mais ligado a dizer a verdade. A não ganhar a qualquer preço.

Muitas vezes se ganha quando se perde. Ainda acredito que é melhor perder com a verdade do que ganhar com a mentira. Porque, depois, a fatura a ser cobrada será alta! E a vida não termina numa só eleição.

Mas melhor mesmo, é ganhar com a verdade. Como nas vezes em que trabalhei para políticos do naipe de uma Luiza Erundina, de um Eduardo Suplicy. Mas como disse algumas linhas atrás, somos humanos, com algumas virtudes e muitas imperfeições. E cada um é um!

Não existe modelo. Isso vale para candidatos e publicitários de comunicação pública.

Eu gosto de acreditar e ter afinidades com quem trabalho, para fazer isso com paixão! Tenho certeza que trabalho melhor assim.

Acredito que os dias de hoje mostram, mais do que nunca, que vai se dar melhor o político, partido ou governo que usar a verdade na sua comunicação. Comunicar a verdade é o caminho mais curto para estar de bem com a população. Andar no carro de vidro aberto, como fez o Papa Francisco recentemente no Brasil, deve ser o sonho de qualquer homem público. Principalmente nos dias de hoje!

Ainda mais nesses tristes tempos em que, justa ou injustamente, a mídia brasileira demoniza a política e os políticos. Já vivemos isso tempos atrás e o resultado foi nefasto para a democracia.

Enfrentar o desafio de defender a democracia e a pluralidade, de comunicar bem, de comunicar diferente e de verdade, é o que me move a ainda continuar a exercer minha profissão, com muito orgulho e com muita paixão!

PS – Hoje em dia, infelizmente, tem muito jornalista fazendo “marketing político” sob o manto enganoso de imprensa imparcial, nas redações de jornais, revistas, sites, rádios e principalmente tevês. E muitas vezes são eles que defendem o fim da propaganda partidária! Qual? A deles ou a nossa?